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Globalização - a tríplice visão

1. Visão dos adeptos.

 Os liberais estão convencidos de que as forças do mercado e a divisão internacional do trabalho otimizam a economia. A interação entre consumidores procurando qualidade e preço com produtores buscando o lucro determinariam o adequado ajuste entre a oferta e a demanda; enquanto a divisão internacional do trabalho, pela especialização regional, aumentaria a competição no mercado com a conseqüente redução dos preços - O Brasil, segundo este conceito, deveria voltar-se prioritariamente para a produção de alimentos, pela abundância de terras férteis e trabalhadores com baixa demanda salarial.

 

Abrigado nas teses liberais, o capitalismo recente determina:

 

•   a desregulamentação da economia e a retirada do governo do planejamento econômico, para garantir a desobstrução das leis de mercado. Dentro desta tese, a função do Estado seria: manter a estabilidade financeira, com visibilidade da taxa cambial, dos juros e dos tributos, bem como garantir um tratamento igualitário para as empresas, de forma a permitir o planejamento dos negócios privados;

 

•   o mercado globalizado com grandes conglomerados empresariais, capazes de diluir no preço unitário dos produtos os custos indiretos, os pré-investimentos, principalmente em pesquisa e as despesas de propaganda;

 

•   a conversão das unidades de produção em sistemas produtivos internacionalmente divididos, segundo a melhor oferta dos fatores locacionais, para otimizar cada etapa da produção e facilitar, as re-localizações financeiramente convenientes;

 

•   a terceirização de sistemistas cativos com a diversificação acionária dentro do complexo produtivo, para a redução dos riscos e responsabilidades sociais do sistema como um todo.

 

Dessa forma a divisão internacional do trabalho e a globalização do mercado estabelecem o rito da economia atual, com a insidiosa justificativa de vantagens para o consumidor – como se o mercado fosse, invariavelmente, constituído de consumidores, buscando qualidade e preço e de produtores, satisfazendo as necessidades dos compradores.

 

Os disfarces desta lógica são:

 

• as ações empresarias com total liberdade de mercado concentram a riqueza, centralizam a atividade produtiva e desorganizam as economias periféricas. Uma vez, estabelecidas às condições iniciais para o desenvolvimento em um pólo econômico, através do aproveitamento de recursos naturais, da infra-estrutura ou do mercado disponível, elas não se propagam de forma espontânea, pelo contrário, drenam as economias periféricas aumentando os desequilíbrios sócio-econômicos;

 

• a divisão internacional da produção confere vocação aos paises desenvolvidos para a produção dos fármacos, da química-fina, da biotecnologia, da mecânica-de-precisão, da microeletrônica, enfim, o monopólio da indústria moderna. Contudo, em se tratando do petróleo ou da agricultura os países com propósitos liberais regentes do capitalismo atual, controlam o suprimento da energia que necessitam e fecham suas alfândegas para os produtos agrícolas. Assim, a teoria na pratica é validade somente no limite do interesse “dos” maiores;

• o mercado é comandado pela oferta e não pela demanda. Os produtores e não os consumidores determinam a disponibilidade dos bens no mercado pela substituição dos produtos por similares ou através da propaganda para criar necessidades. A falta de componentes e peças para a manutenção, muito mais do que a evolução tecnológica determina, hoje, a obsolescência prematura do automóvel e dos eletrodomésticos. Neste processo, a mídia tem um papel relevante, pois dela depende o convencimento do consumidor para incorporar novos hábitos de consumo e mudar sua estrutura de consumo. No supermercado, é possível perceber a indução dos consumidores para a compra de produtos supérfluos tais como: salgadinhos, refrigerantes e detergentes em lugar do pão, leite e sabão - apesar do conhecimento de todos da essencialidade daquilo que a mídia não divulga;

 

• a globalização determina a primazia do primeiro mundo. A soberania de estado ou, de forma mais branda, a autonomia de estado, como o poder de decisão, em última instância para, apoiados na lei, os governos, dos paises subdesenvolvidos, preservarem direitos e deveres, públicos ou privados e estabelecerem planos de desenvolvimento de forma independente, em relação a qualquer intromissão estrangeira se anula diante da globalização. Demais, somente o Primeiro Mundo pode garantir a livre concorrência mediante embargos, retaliações, bloqueios econômicos e outras penalidades previstas pela Organização Mundial do Comércio enquanto o Segundo Mundo não tem com o que retalhar ou como penalizar;

 

• Com o novo Capitalismo o desenvolvimento se reproduz aos pólos tradicionais. As regiões periféricas ficam paralisadas diante da impossibilidade de proteger, estimular ou beneficiar empresas estruturadoras de um setor ausentes ou escassos internamente. O câmbio administrado com faixas diferenciadas, o crédito orientado, os subsídios tributários e outras formas do governo intervir na economia para implementar políticas de desenvolvimento são meios irregulares nos acordos de Unificação de Mercados.

 

Em resumo, na Globalização Liberal o papel do governo é manter a estabilidade econômica e a eqüidistância fiscal para que as empresas possam desenvolver e implementar seus planos financeiros sob um clima de livre concorrência.

 

Diante da experiência desastrosa do liberalismo na Europa, entre a primeira e a segunda guerra mundial, que determinou o surgimento e implementação de três filosofias de estados fortíssimos, duas de direita o Nazismo e o Fascismo e uma de esquerda, o Comunismo, a idéia liberal, mesmo com a roupagem nova, não poderia ter conquistado tantos adeptos como se observa atualmente.

 

2. Os contrários.

 

Nada de novo entre o céu e a terra. Como os liberais, os socialistas reformaram suas utopias. Já não falam na apropriação dos meios de produção pelos trabalhadores, pois nos Estados Unidos da Americana do Norte, país de propósitos liberais, 1/3 do capital e a direção das maiores empresas está na mão dos trabalhadores. Também, a união internacional dos trabalhadores perdeu apelo diante da proposta de globalização capitalista.

 

Na dialética Marxista a globalização é a tese, a antítese é o neocomunismo e a síntese o anarquismo - estágio avançado do comunismo. Negri, vedete do movimento antiglobalização, em artigo para Lê Monde Diplomatique, explica: “a atual globalização e o neocomunismo, no fundo, não são opostos, pelo contrário, sucederam a um mesmo processo revolucionário que marcha para a anarquia igualitária prevista por Bakunin” (o anarquismo condena todo tipo de autoridade – política, religiosa etc. — reconhecidas como inibidoras das liberdades individuais).

 

A maioria dos contrários a globalização capitalista são favoráveis à chamada “globalização democrática” expressa pela liberdade e a libertação das culturas tradicionais e o respeito aos estilos alternativos de vida.

 

 “Pela paz dos incomodativos, retirem-se os incomodados”.

 

Tal revolução usa como combustível o estranho ambiente, que cerca as pessoas de forma gigantesca, anônima, distante e incerta, das mega-fusões de empresas multinacionais, do poder sem controle de um grupo restrito de cientistas sobre a vida; da moeda única e dos fichários informatizados com todos os dados sobre o cidadão; das megalópoles agitadas e perigosas, comandadas pelo crime organizado da droga e da corrupção; do descrédito nas autoridades e das leis constrangedoras para as pessoas. Assim, diante de um mundo ameaçador, difuso e artificial, o anarquismo comprometido com uma vida singela e natural é a fantasia que embala os desesperançados.

 

A luta socialista não é mais, como nos velhos tempos, do patrão contra o empregado, mas dos pobres do Sul contra os ricos do Norte, dos defensores da natureza contra e a depredação competitiva, da ciência contra a fantasia.

 

Assim, a globalização democrática antiliberal, vai armando um novo combate à propriedade privada e a livre iniciativa. Enfim, é o velho comunismo.

Pensando bem, não se poderia esperar que uma única implosão fizesse ruir toda a construção comunista, edificada cuidadosamente, durante tantos anos. Na verdade, foi um túnel que escondeu a composição socialista ao trespassar a montanha do capitalismo selvagem.

 

3. A Globalização para a Produção.

O trabalhismo brasileiro deve ter, em relação à globalização visão bifocal: uma para identificar o pesado volante social, cuja mobilidade é atenuada pelo alimento subsidiado internamente e externamente barrado pelas alfândegas dos paises desenvolvidos; a outra visão, para reconhecer as oportunidades do mercado brasileiro.

 

Preservar a alimentação saudável, variada e barata para o brasileiro é uma questão de segurança nacional. A abertura do mercado internacional para a agricultura brasileira com a eliminação dos subsídios, condição necessária na formação de mercados consumidores unificados, irá emparelhar os preços da comida no Brasil e no Primeiro Mundo. Assim ao falar do potencial de nossas exportações é preciso pensar na equivalência dos salários. Nos Estados Unidos, por exemplo, é de US$1.200,00 o salário mensal da classe baixa. Estima-se que, sob a condição de mercados globalizados, 2/3 da população brasileira com mais de 10 anos necessitaria de um substancial reforço de renda para atingir o nível de alimentação da classe baixa do Primeiro Mundo. Portanto, o primeiro quesito sobre a Alca, por exemplo, é identificar quem pagará a conta de compensação salarial brasileira calculada em US$ 90 Bi/ano.

 

De outra parte, com o foco para uma visão panorâmica, o Mercado Brasileiro, pelo tamanho e estrutura, apresenta inúmeras oportunidades para a produção interna de bens, insumos, máquinas e equipamentos modernos. O mercado brasileiro, dentro do neocapitalismo é a maior riqueza deste País. Contudo, a inovação tecnológica exige pré-investimentos e representa riscos que a empresa brasileira ainda não tem condições de assumir. Cabe assim ao Estado promover a modernização da estrutura produtiva brasileira estimulando a iniciativa privada, participando ou provendo, a oferta de produtos da moderna tecnologia. Se assim não for estaremos comprometendo a nossa independência.

 

O Trabalhismo Brasileiro, com suas ideologias de Governo Nacionalista e Estado Desenvolvimentista reconhece somente a Globalização para a Modernização da Estrutura Produtiva Brasileira. Queremos dizer que, muito mais que o mercado do Primeiro Mundo, precisamos de parceiros para a modernização da nossa estrutura produtiva.

 

Como se vê, a Globalização do Trabalhismo Brasileiro é diferente da Globalização dos liberais e não se identifica com a Globalização dos socialistas.

  

4. Os desafios.

 

O Brasil, como resultado de políticas populistas, buscou no endividamento os meios para complementar receitas fiscais. Esta prática repetida, com a conivência dos credores faz supor que os operadores de tais empréstimos pretendiam estar longe do vulcão, representado por tais financiamentos, por ocasião de sua erupção – e estavam certos, pois hoje ninguém se preocupa com os culpados e somente resta compensar tamanha  sacanagem para recuperar a credibilidade no País.

 

Fazer o que?

 

Uma receita simples, com dificuldades políticas para aviá-la:

Superávit operacional nas contas públicas, Superávit na balança comercial e internalização da dívida pública. Globalização para a Produção com retorno ao mercado interno, com inibição a poupança em moeda estrangeira e com a valorização da economia real.

 

5. Pontos fortes desta proposta:

 

• O mercado interno – O mercado grande e sofisticado disponível no Brasil satisfaz as escalas econômicas de produção e prestação de serviços, criando assim, inúmeras oportunidades para a expansão e modernização da nossa estrutura produtiva.

 

• Os recursos humanos – O Brasil dispõem, internamente, do volume necessário de técnicos e cientistas qualificados, para a revolução tecnológica do País.

 

• Os recursos financeiros - a poupança de brasileiros deve ser estimulada a retornar ao Brasil. Demais, nenhuma empresa de porte internacional deixara de investir no potente mercado Brasileiro, havendo credibilidade em relação ao regramento interno da economia e isto não significa não ter regras.

 

• Planejamento das exportações – Ainda temos a memória do Planejamento Governamental com suas inúmeras formas de compor soluções para exportação com desenvolvimento interno.

 

6. A Meta.

 

A verdadeira “Utopia” é crescer 7% ao ano, depois de 10 anos de paralisação. Isto requer investimentos da ordem de 1/5 do PIB (20% investimentos públicos e 80% privados)

 

Um sonho possível!

Com o retorno do planejamento governamental, implementado por políticas fiscais, é possível desfazer a tendência de localizar no Primeiro Mundo a oferta dos bens de vanguarda e no Mundo Secundário a exportação de matérias-primas e produtos tradicionais.

 

Porto Alegre, maio de 2003.

 

Orion Cabral

Membro Fundador do Movimento Autenticidade Trabalhista – MAT. Membro do Colegiado Consultivo e Deliberativo, instância máxima do Movimento Autenticidade Trabalhista – MAT, órgão dirigente cujos membros têm poderes iguais.

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