Diretório Estadual do Rio Grande do Sul

 

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Responsável pela maior epidemia mundial, o vírus corona 19 é raro, desconhecido e inusitado. Por diferente de outros vírus do tipo Síndrome de Insuficiência Respiratória Aguda (SARS ), o COVID-19 é único, excepcional, e conseguiu transformar uma epidemia em pandemia. Mas não uma pandemia lenta, gradual e progressiva, mas uma de alta virulência que atingiu a maioria dos países do nosso planeta.

Em nada semelhante às gripes anteriores, como aquelas provocadas por Influenza A de B ou mesmo as de origem animal como a aviária e a suína. Por não se conhecer o agente patógeno e seus mecanismos de ação no interior do nosso organismo, foi impossível evitar sua propagação tanto por meios medicamentosos (Redemsvil, Nitaroxanida, Cloroquina e Azitromicina) como por medidas não medicamentosas (máscaras, luvas, acetato, sapatilhas e esterilização pelo álcool gel 70º graus, etc.

É preciso ter em mente o pouco que se sabe sobre essa infecção viral para entender o que se passa dentro do organismo humano. Em geral, ela se inicia por uma gripe nas vias aéreas superiores, tal como um resfriado comum. Sabemos que outras viroses do tipo SARs também provocam síndromes de insuficiência respiratória aguda. Algumas das SARSs foram identificadas e combatidas, porém o SARS 2, a matriz biológica do Covid-19, apresentou uma nova forma diferenciada de infeção respiratória, bem diferente das demais. Seu início é usual. Imita um resfriado comum com coriza e aumento de temperatura, ainda assim com alguns sintomas pouco frequentes, como perda do olfato e perda da gustação .

Quando evolui para o segundo estágio, no entanto, a síndrome é bem mais grave. O  vírus alcança os brônquios e se expande pelos pulmões causando uma pneumonia. Ao descer das vias aéreas superiores e atacar as vias aéreas inferiores a infecção torna-se maléfica e inunda os alvéolos pulmonares com plasma devido a ação de um caldo inflamatório. Segundo algumas pesquisas as citoquininas que destroem os alvéolos são produzidas por bactérias intestinais, daí a tentativa de impedir a inundação pulmonar por meio de antibióticos. Nesses casos, porém, o processo evolui para uma pneumonia viral extremamente destrutiva, necessitando de internação hospitalar em centros apropriados de terapia intensiva com respiradores para atenuar a insuficiência respiratória. Portanto, a abordagem medicamentosa é paliativa e serve apenas para retardar o grau de comprometimento pulmonar, mas não age sobre o RNA do vírus.

As medidas não medicamentosas também não neutralizam e vírus e visam evitar a infeção. Sem a eficácia de uma vacina, se alguém tornar-se “corona positivo” estará sujeito a sua própria sorte.  Para evitar um desfecho sombrio resta apenas uma medida genérica que é bastante eficaz: o isolamento social. Nosso objetivo nesse trabalho é avaliar o impacto da pandemia no Brasil, especialmente entre os idosos que, estatisticamente, constituem o grupo de maior risco.

Em função da ascensão epidêmica do corona vírus e da absoluta excepcionalidade dessa patologia, algumas medidas devem ser tomadas para preservar o bem-estar físico e mental dos idosos. A primeira recomendação, é manter os vínculos afetivos entre familiares e amigos, para evitar a depressão e a ansiedade decorrente do isolamento social e afetivo. É imprescindível um esforço conjunto de todos nós baseado na solidariedade social. Voltamos aos tempos em que a “união faz a força”.

A segunda e mais importante recomendação foi manter isolamento mesmo cientes de que impedem as atividades comerciais e prestação de serviços, atingindo assim os ganhos salariais de cada um. Todos devemos aceitar algum grau de perda em relação ao recebimento financeiro de antes. Não é hora de ser ganancioso, egoísta ou capitalista. E hora de pensar o outro dentro de nós. Manter a vida é mais importante do que ganhar dinheiro.

É também relevante discernir entre aqueles que estão lucrando com a epidemia, governo, empresários ligados a saúde, bancos e planos de saúde e os que estão perdendo. O trabalhador que precisa trabalhar é quem mais se expõe. Para preservar seus ganhos indispensáveis à vida de seus familiares se sujeita ao contágio. Os trabalhadores são os mais atingidos. Também é justo distinguir entre aqueles que não estão recebendo porque estão sem trabalhar daqueles que, trabalhando em dobro, deixam de receber. Esses últimos são os profissionais da saúde, tanto os dedicados a um atendimento precário como aqueles que trabalham em centros de pesquisa. É sensato supor que em vez de ter seus serviços sucateados deveriam receber auxílio direto para o fomento de pesquisas, especialmente de vacinas.

Outro aspecto que atinge diretamente os idosos é o distanciamento social. Esse isolamento é essencialmente afetivo e torna o idoso especialmente dependente de cônjuges e de familiares próximos, muitas vezes em detrimento da relação com colegas e amigos. Para evitar a propagação da epidemia, o cidadão se afastou de seus familiares, amigos e outros coletivos sociais.

O distanciamento de relações sociais duradouras somado à dependência afetiva  facilitam o desencadeamento de um quadro depressivo pela falta de perspectiva e pela ansiedade pela ameaça de perder a vida antecipadamente. Muitos médicos, psiquiatras, psicanalistas e psicólogos se dispuseram a dar atendimento pelo Skype ou pelo WhatsApp para evitar o agravamento desse estado humoral. Tentam impedir que seus pacientes e pessoas necessitadas caiam em uma depressão severa, no alcoolismo ou surtem pela elevação da ansiedade.

Os avós não podem mais abraçar seus netos e pai e mãe viram suas casas transformadas provisoriamente em uma prisão. Sua liberdade tornou-se inteiramente condicional. Ainda assim, a “fuga da prisão” pode resultar em pena de morte. A elevação descabida do número de mortos comprova a letalidade da flexibilização, na medida em que no início de março havia apenas um caso e em meados de junho atingimos mais 40 mil casos.

Outro “efeito colateral” psiquiátrico da pandemia é a mania onde as pessoas descreem da epidemia, se acham ótimas, ignoram a transmissão viral e se comportam como se nada estivesse acontecendo. As festas de COVID 19 são exemplos desse estado irracional de euforia e da tentativa de compensar a frustração por meio de uma euforia aquisitiva. Psicologicamente, esse outro tipo de euforia significa dar total prioridade à atividade, ao ganho econômico e aos investimentos em detrimento de preservar sua própria vida e a dos outros. Nesse estado mental, as pessoas apresentam também um embotamento afetivo, abandonam seus namorados, conjugues ou analistas. Eles se sentem inatingíveis, negam sua vulnerabilidade e afirmam que a doença não existe.

Tudo isso em meio a um governo autoritário e paranoide que está levando o país ao caos em quase todas as áreas ministeriais: ambiental (floresta amazônica), saúde (pandemia), econômica (retira direitos de trabalhadores e favorece o empresariado ideologicamente fascista), na educação (tenta controlar ideologicamente a produção de conhecimento, acabando com o ensino básico, interrompendo programas de aperfeiçoamento de estudos superiores, controlando a indicação de reitores das universidades e retira verba de instituições de pesquisa. Isso sem falar no sucateamento dos nossos recursos naturais e econômicos por meio de um programa absurdo de privatizações que visa deixar o país completamente sem recursos.

Assim, há que se lutar contra um outro vírus, bem pior do que o corona. O vírus do fascismo concentrador de renda e da incompetência para gerir o país.

Portanto, o maior problema da pandemia é impor a todos uma espécie de “estado social psicótico”. A psicose é uma forma de desconectar o sujeito de seus vínculos afetivos, mas é também uma forma de desconectar o governo federal do seu povo. No primeiro caso, precisamos preservar o isolamento. No segundo, precisamos conglomerar e protestar contra as medidas deletérias tomadas por esse governo. Há uma tempestade perfeita, fruto de uma dupla psicose. Uma que é política e nos afasta da realidade social, outra é individual e nos afasta das pessoas que amamos. Para sobreviver nos tempos atuais, o convite do Covid-19 é lutar com vida nas duas frentes de combate.

*Adail Ivan de Lemos é médico psiquiatra

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